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Parto Normal ou Cesárea: a opinião de um clínico |
Em artigo, Antonio Carlos Lopes, da Sociedade
Brasileira de Clínica Médica, diz porque é contra os incentivos do Ministério ao
parto normal.
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O parto, além de ser um ato fisiológico, é um ato médico. Muito se discute sobre
a decisão de tentar o parto normal ou agendar a cesárea previamente por fatores
que variam da comodidade às crenças populares. |
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Atualmente, os índices de cesáreas no país vêm crescendo, representando,
atualmente, 43% dos partos em 2007, segundo o Ministério da Saúde. O número está
muito além dos 15% apresentados pela Organização Mundial da Saúde(OMS).
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| Na tentativa de normalizar a situação, diversas propostas vêm sendo discutidas
entre médicos, governo e sociedade, nem sempre felizes. A mais recente foi da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que anunciou um pacote de
supostos benefícios a vigorar a partir de dezembro na tentativa de incentivar o
parto normal. |
O pacote teoricamente visa a reduzir as cesarianas por meio da oferta de alguns
atrativosàs mães que optarem pelo parto normal. Entre eles, a presença do
acompanhante antes, durante e após o parto; quartos com até duas gestantes; a
possibilidade de o bebê ficar ao lado da mãe no quarto, se não houver
impedimento clínico; e a liberdade de escolha da mulher, também se não houver
impedimento clínico, quanto à posição em que dará a luz: de cócoras ou deitada. |
Mas será que a mãe tem realmente pleno domínio desse processo e amplas condições
de tomar tal decisão sozinha? A palavra do médico, sua experiência cotidiana, a
bagagem de conhecimento científico não valem nada numa hora dessas? |
Ora, a medicina determina algumas situações em que o médico tem de
necessariamente optar pela cesárea. Embora em alguns casos esta decisão possa
ser tomada com antecedência, como nos casos de partos cesáreas anteriores ou
gestações gemelares, na grande maioria dos casos ela só pode ser tomada com
segurança durante o trabalho de parto. A posição do bebê, a falta de dilatação
uterina ou ainda o sofrimento fetal são os maiores responsáveis pela decisão de
se realizar uma cirurgia para a saída do concepto. |
Cabe, portanto, ao médico, decidir, orientar e adiantar para a
gestante todas as possíveis complicações e mudanças de planos que podem
porventura surgir até o nascimento. |
Como toda cirurgia, a cesariana não é sempre isenta de riscos. Também exige
maior tempo de internação e resulta em pós-operatório que requer mais cuidados
nos dias ou semanas seguintes. Já no parto normal, além dos benefícios para a
mãe, que não passa por uma cirurgia, há uma série de vantagens ao bebê, como
expansão pulmonar mais natural e menor risco de desconforto respiratório. |
Voltando à tentativa do governo de incentivar o parto normal, o que acontecerá
com a mãe que, mesmo inclinada a ter seu bebê pela via natural, tiver de se
submeter a uma cesariana por determinação clínica. Se essa for a única forma de
o procedimento chegar a bom termo para ela e para a criança, será mesmo assim
punida com a retirada de todos os benefícios que já havia vislumbrado? |
É com a perspectiva de criar distorções como esta que este projeto foi anunciado
como "uma tentativa de incentivar a humanização do parto". Humanização?
Humanização tem origem na escola, no ensino médico de qualidade, na segurança e
no conforto a todas as gestantes, independentemente da indicação clínica para o
tipo de parto. |
A humanização deve contemplar maternidades e centros obstétricos e enfermagem
obstétrica à altura do bem-estar materno-fetal. Também envolve extinguir as
malfadadas Casas de Parto, que se prestam apenas aos menos favorecidos, enquanto
os que as preconizam buscam para suas filhas e esposas as melhores maternidades
e os melhores obstetras. Para completar, nos deparamos com o absurdo dos cursos
formadores de parteiras, em detrimento do direito da enfermeira obstétrica de
acompanhar o parto, cuja formação acadêmica atende às necessidades da boa
assistência ao parto. |
Antonio Carlos Lopes é Professor Titular da Disciplina de Clínica Médica da
Unifesp/EPM, Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, e
Ex-Secretário Executivo da Comissão Nacional de ResidênciaMédica/MEC |
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Fonte: Antonio Carlos Lopes
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